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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Registro de mortes em ações policiais muda em meio à alta de casos em MS

Estado contabilizou 145 óbitos até 1º de outubro; CNJ quer detalhamento nas certidões

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) determinou que os cartórios identifiquem nos registros de óbito as mortes ocorridas durante intervenções policiais, mesmo quando a ação dos agentes for considerada legítima. A decisão, divulgada nesta quarta-feira (4), busca melhorar as estatísticas e facilitar o acesso das famílias a informações e direitos. Em Mato Grosso do Sul, pelo menos 145 pessoas morreram em ações policiais entre janeiro e o início de outubro, conforme levantamento do Campo Grande News.

Até então, uma pessoa morta a tiros durante uma abordagem poderia ter o óbito registrado apenas como consequência de disparos de arma de fogo, sem indicação de que havia policiais envolvidos. Com a mudança, essa circunstância deverá constar no documento, independentemente do resultado da investigação sobre a conduta dos agentes.

Segundo o CNJ, a identificação permitirá produzir estatísticas mais precisas e poderá ajudar familiares em pedidos de benefícios e eventuais indenizações. A anotação, no entanto, não significa que houve crime nem estabelece responsabilidade dos policiais.

Mortes em MS – O número de mortes decorrentes de intervenções policiais cresceu ao longo de 2026 em Mato Grosso do Sul. Em 7 de setembro, o Campo Grande News contabilizava 130 casos desde janeiro, com agosto concentrando 30 ocorrências, o maior número mensal registrado até então.

Em 1º de outubro, o levantamento já apontava 145 mortes. A atualização foi publicada após Bruno Francisco Rodrigues, de 29 anos, ser baleado durante uma ação da Força Tática no Bairro Tiradentes, em Campo Grande.

Registro de mortes em ações policiais muda em meio à alta de casos em MS

A polícia relatou que houve confronto, mas familiares contestaram essa versão e afirmaram que Bruno já estava rendido quando foi atingido. O caso expôs a dificuldade de esclarecer as circunstâncias de algumas dessas ocorrências, sobretudo quando os relatos dos envolvidos são diferentes.

A exigência do CNJ não resolve essa disputa nem substitui a investigação. Ela determina que a participação policial seja identificada no registro civil, sem que seja necessário aguardar uma conclusão sobre a legalidade da ação.

Investigação – Em julho, o Campo Grande News mostrou a falta de imagens e outros registros que poderiam ajudar a esclarecer mortes em operações policiais no Estado. A ausência de câmeras corporais, gravações e testemunhas independentes dificulta a reconstrução dos fatos, especialmente nos casos em que a versão policial é contestada.

O controle dessas ocorrências também passou por mudanças em Mato Grosso do Sul. Desde maio, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) ampliou sua atuação na apuração de mortes decorrentes de intervenções policiais, por meio do Gacep (Grupo de Atuação Especial e Controle da Atividade Policial).

Em reportagem publicada em fevereiro, o promotor Douglas Oldegardo Cavalheiro dos Santos explicou que o termo adequado é "morte decorrente de intervenção policial". A expressão "confronto", frequentemente usada nos primeiros relatos, pressupõe uma reação entre os envolvidos que nem sempre foi comprovada.

O que muda – A determinação do CNJ acrescenta aos registros de óbito uma informação que nem sempre aparecia nos documentos: a participação de agentes policiais nas circunstâncias da morte.

Com isso, será possível distinguir essas ocorrências de outras mortes violentas, mesmo quando a causa médica for semelhante. A medida também poderá ajudar a comparar informações produzidas por órgãos de segurança, serviços de saúde e cartórios.

Para os familiares, o registro poderá servir como documento em procedimentos administrativos e judiciais, inclusive em pedidos de benefícios ou indenização. O reconhecimento da intervenção policial, porém, não garante esses direitos automaticamente. A apuração de eventual responsabilidade dos agentes continuará dependendo das investigações.

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