O avanço do El Niño na temporada 2026/2027 coloca a agropecuária de Mato Grosso do Sul diante de um cenário de riscos climáticos que podem afetar desde as lavouras de soja e milho até a produção de cana-de-açúcar, a criação de bovinos e as florestas de eucalipto. Ao contrário de Mato Grosso e Goiás, onde a principal preocupação é a falta de chuva, o centro-sul sul-mato-grossense poderá enfrentar precipitações acima da média, com possibilidade de encharcamento do solo, dificuldades na colheita e perdas de produtividade.
O alerta consta de nota técnica fechada em setembro pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), intitulada "Estratégias e tecnologias para redução dos impactos do El Niño na produção agropecuária do Centro-Oeste". O documento reúne análises climáticas e recomendações específicas para as principais atividades agrícolas e pecuárias da região.
Segundo o estudo, os modelos climáticos apontam probabilidade superior a 90% de que o El Niño alcance intensidade muito forte. As projeções também indicam elevada possibilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027, período decisivo para o desenvolvimento da safra de verão e o planejamento da segunda safra.

Em Mato Grosso do Sul, o comportamento das chuvas deverá apresentar diferenças importantes entre as regiões. Na metade sul, especialmente nas áreas de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, os modelos apontam maior probabilidade de precipitações acima da média entre setembro e novembro. Nos meses seguintes, a tendência é de volumes próximos ou ligeiramente superiores aos padrões históricos.
Isso não significa, porém, que o Estado estará protegido contra a estiagem. A Embrapa ressalta que o volume total de chuva não garante sua distribuição regular. Mesmo em uma temporada mais úmida, podem ocorrer períodos prolongados sem precipitação, conhecidos como veranicos, capazes de comprometer lavouras em fases decisivas de desenvolvimento.
A combinação entre chuvas intensas, intervalos secos e ondas de calor exige atenção especial porque os efeitos variam conforme a cultura, o tipo de solo, a localização da propriedade e o estágio de desenvolvimento das plantas.

Risco para soja e milho
A sucessão entre soja e milho, principal sistema de produção de grãos em Mato Grosso do Sul, está entre as atividades mais expostas às mudanças no regime de chuvas.
Na soja, o excesso de precipitação previsto para o centro-sul do Estado pode prejudicar desde a germinação das sementes até a colheita. O encharcamento reduz a disponibilidade de oxigênio no solo, dificulta o crescimento das raízes e compromete o desenvolvimento das plantas.
A umidade elevada também favorece doenças como ferrugem-asiática, mancha-alvo e problemas que provocam a morte de plantas jovens. A situação pode se agravar quando as condições do terreno impedem a entrada de pulverizadores no momento adequado para o controle das doenças.
Outro problema é a dificuldade de realizar a colheita. Chuvas frequentes podem provocar a abertura das vagens, a germinação prematura dos grãos ainda na planta e a chegada de cargas excessivamente úmidas aos armazéns, com perda de qualidade e descontos no valor recebido pelo agricultor.
O estudo também chama atenção para os prejuízos provocados pela estiagem e pelo calor. Durante o enchimento dos grãos, a demanda de água da soja pode alcançar de 7 a 8 milímetros por dia. A falta de umidade nessa fase pode reduzir o rendimento em mais de 50%, dependendo da intensidade e duração do problema.
Para o milho de segunda safra, o risco começa ainda no calendário da soja. Caso o plantio ou a colheita da primeira cultura atrasem, o milho poderá ser semeado fora do período de melhores condições climáticas, aumentando a exposição à falta de água e, conforme a região, a temperaturas baixas.
A Embrapa recomenda respeitar o calendário agrícola de cada município, evitar o plantio em solo sem umidade suficiente e avaliar alternativas ao milho quando houver atraso significativo. Sorgo e milheto aparecem como opções de menor risco em determinadas condições, especialmente por apresentarem características agronômicas favoráveis em ambientes de restrição hídrica.
Algodão
A produção de algodão também deverá enfrentar condições distintas dentro do território sul-mato-grossense.
No sul do Estado, especialmente nos municípios de Maracaju e Aral Moreira, a Embrapa alerta para dificuldades na colheita decorrentes do excesso de umidade. As chuvas podem provocar apodrecimento dos frutos e comprometer a qualidade da fibra, reduzindo o aproveitamento comercial da produção.
O atraso na regularização das chuvas também pode afetar o calendário de semeadura, com consequências sobre o desenvolvimento das plantas e a qualidade do algodão.
Já no nordeste de Mato Grosso do Sul, onde o plantio costuma ocorrer em dezembro, os pesquisadores avaliam que o impacto de eventual atraso no início da estação chuvosa tende a ser menor. A principal preocupação nessa região é a possibilidade de chuvas abaixo da média associadas a temperaturas elevadas.
Nessas condições, o algodoeiro pode apresentar redução do crescimento e queda de estruturas reprodutivas, comprometendo tanto a quantidade produzida quanto a qualidade da fibra.
Entre as recomendações estão a escolha de variedades adequadas à época de plantio, a conservação da umidade do solo e a preferência por áreas sem compactação, capazes de permitir maior infiltração da água. Solos arenosos exigem cuidado adicional porque armazenam menos umidade e tornam as plantas mais vulneráveis à estiagem.

Cana-de-açúcar
A cana-de-açúcar, uma das principais matérias-primas da indústria de bioenergia em Mato Grosso do Sul, também aparece entre as culturas ameaçadas.
O Estado ocupa a quarta posição nacional na produção de cana, segundo os dados apresentados pela Embrapa. A expansão das usinas transformou a economia de municípios produtores, ampliando a geração de empregos e a demanda por serviços e insumos agrícolas.
Para a safra 2026/2027, a previsão de chuvas acima da média no centro-sul do Estado traz preocupação principalmente para as operações de colheita e para a qualidade da matéria-prima entregue às indústrias.
O excesso de água durante a maturação pode fazer com que a planta continue crescendo em vez de concentrar açúcar nos colmos. Com isso, a cana pode chegar à usina com menor teor de açúcar recuperável, reduzindo o rendimento industrial.
Tempestades acompanhadas de ventos fortes também podem derrubar os colmos, dificultando a colheita mecanizada. O solo excessivamente úmido limita a circulação de máquinas e caminhões, prejudica o transporte e aumenta o risco de compactação.
Nas regiões sujeitas à estiagem, o problema é diferente. A falta de água pode prejudicar a brotação após o corte, reduzir o crescimento das plantas, diminuir a produção por hectare e comprometer a recuperação dos canaviais.
A Embrapa recomenda distribuir variedades com diferentes ciclos de maturação, conservar a palha sobre o solo, utilizar irrigação quando houver disponibilidade e ajustar as operações de corte, carregamento e transporte às condições meteorológicas.
O impacto econômico pode alcançar também a produção de etanol e açúcar, já que a quantidade e a qualidade da cana influenciam diretamente o abastecimento das unidades industriais.
Arroz e feijão
Embora tenham menor participação na produção regional de grãos do que soja e milho, arroz e feijão também foram incluídos na avaliação dos pesquisadores.
No caso do arroz de terras altas, cultivado sem inundação permanente, a principal preocupação é a combinação entre deficiência hídrica e temperaturas elevadas.
A falta de água reduz a fotossíntese, prejudica a formação das panículas, estruturas que sustentam os grãos, e aumenta o risco de esterilidade. Temperaturas superiores a 35°C podem comprometer a formação dos grãos e reduzir a produtividade.
A Embrapa destaca que os impactos do atraso na semeadura são particularmente importantes em Goiás e Mato Grosso, mas ressalta que o arroz cultivado em Mato Grosso do Sul também pode sofrer perdas caso ocorram períodos de estiagem e calor intenso.
Para reduzir os riscos, a orientação é utilizar variedades adaptadas às condições locais, respeitar as épocas de plantio recomendadas e adotar práticas que favoreçam a conservação da água no solo.
O feijão apresenta sensibilidade semelhante, principalmente durante a floração e o enchimento dos grãos.
Quando falta água nessas fases, as plantas podem apresentar menor crescimento, redução no número de vagens e diminuição da quantidade de sementes produzidas.
Temperaturas superiores a 35°C durante a floração também prejudicam a produtividade. Por outro lado, temperaturas inferiores a 12°C podem provocar a queda de flores e comprometer o rendimento.
O estudo recomenda atenção ao calendário de semeadura, à escolha das variedades e ao manejo do solo. A aplicação de bioinsumos, incluindo inoculantes, também exige condições adequadas para garantir a eficiência dos microrganismos utilizados.

Pecuária
Na pecuária, os riscos envolvem a disponibilidade de pastagens, a alimentação dos animais e as condições de manejo. O Centro-Oeste reúne 76,7 milhões de bovinos, equivalentes a 32,1% do rebanho brasileiro, segundo os números apresentados no documento.
Em Mato Grosso do Sul, a preocupação é particularmente importante no Pantanal, onde a criação extensiva depende diretamente das pastagens nativas e da alternância entre períodos secos e de inundação.
A Embrapa alerta que o comportamento das águas no Pantanal não pode ser previsto apenas pela intensidade do El Niño. O volume de chuvas nas cabeceiras da Bacia do Alto Paraguai, os níveis dos rios e a umidade acumulada no solo também influenciam a extensão das cheias.
Por isso, os produtores precisam considerar dois cenários: prolongamento da estiagem e aumento das áreas inundadas.
Na hipótese de seca prolongada, a redução da disponibilidade de pasto pode provocar perda de peso, piora das condições corporais das matrizes e queda no desempenho reprodutivo. A concentração do gado perto de fontes de água também aumenta o desgaste da vegetação e a pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis.
O calor intenso agrava a situação. Os animais passam a consumir mais água, podem reduzir o tempo de alimentação nas horas mais quentes e apresentar menor ganho de peso. A combinação de vegetação seca e temperaturas elevadas ainda aumenta o risco de incêndios.
Por outro lado, uma cheia intensa também pode trazer prejuízos. Quando a água avança rapidamente, o gado tende a procurar terrenos elevados, conhecidos como cordilheiras, diminuindo a área disponível para alimentação.
A concentração de animais nesses locais pode provocar competição por pasto, dificuldades de locomoção, problemas nos cascos e maior exposição a parasitas.
A Embrapa ressalta, entretanto, que as inundações periódicas são fundamentais para o funcionamento ecológico do Pantanal e não devem ser tratadas automaticamente como um problema. Os riscos aparecem quando a intensidade ou a duração das cheias ultrapassa a capacidade de adaptação das propriedades.
Entre as medidas recomendadas estão o acompanhamento dos níveis dos rios, a identificação prévia de áreas de refúgio, a manutenção de reservas de alimentação e o planejamento de rotas para movimentação ou retirada dos animais.
Nas pastagens cultivadas do planalto sul-mato-grossense, o excesso de chuva também pode provocar encharcamento, morte de raízes, compactação do solo e redução da produção de forragem. A recomendação é ajustar a quantidade de animais à capacidade das áreas e restringir o pastejo em terrenos excessivamente úmidos.

Eucalipto e indústria de celulose
A expansão das florestas plantadas transformou Mato Grosso do Sul em um dos principais polos de produção de madeira para celulose do país. O Estado já ultrapassa 1,9 milhão de hectares de silvicultura, dos quais 99,6% ocupados por eucalipto.
A cadeia de papel e celulose representa mais de 10,9% do PIB (Produto Interno Bruto) estadual e movimenta mais de R$ 15,8 bilhões, conforme os dados reunidos na nota técnica.
Diferentemente das lavouras anuais, os impactos climáticos nas florestas podem permanecer por vários anos. Mesmo quando as árvores sobrevivem a uma estiagem, a redução do crescimento pode comprometer o volume de madeira disponível no momento do corte.
A falta de água durante o estabelecimento dos plantios pode provocar morte de mudas, necessidade de replantio e aumento dos custos operacionais. Em árvores mais desenvolvidas, o estresse hídrico pode causar queda de folhas, ressecamento de galhos, redução do crescimento e maior vulnerabilidade a pragas.
O calor excessivo também pode danificar os tecidos da base das mudas e aumentar o risco de incêndios florestais.
A preocupação não se limita aos produtores de madeira. Como as indústrias de celulose dependem de fornecimento contínuo de matéria-prima, uma redução prolongada da produtividade florestal pode afetar o planejamento industrial.
O documento destaca ainda a importância da biomassa florestal para o abastecimento energético de agroindústrias, incluindo unidades de produção de etanol de milho.
Para reduzir os riscos, os pesquisadores recomendam selecionar materiais genéticos adaptados às condições climáticas, conservar a cobertura do solo, ajustar o calendário de plantio e manter estruturas de prevenção e combate a incêndios.
A principal orientação da Embrapa é que o produtor não baseie suas decisões apenas na expectativa de chuva ou seca para os próximos meses.
O documento recomenda o uso do ZARC (Zoneamento Agrícola de Risco Climático), ferramenta que indica os períodos de semeadura de menor risco para cada município, cultura e condição de solo.
Outra medida considerada essencial é a adoção do sistema de plantio direto, com manutenção de palha sobre o solo, rotação de culturas e redução do revolvimento da terra. Essas práticas ajudam a conservar a umidade, melhorar a infiltração da água e diminuir a vulnerabilidade das lavouras.
Em áreas sujeitas a chuvas intensas, os produtores devem reforçar os cuidados com drenagem, erosão e compactação do solo. Nas regiões com risco de estiagem, a prioridade é ampliar a capacidade de armazenamento de água no terreno e evitar plantios em condições inadequadas.
A Embrapa também recomenda avaliar a contratação de seguro rural, acompanhar constantemente as previsões meteorológicas e ajustar os investimentos em insumos às perspectivas de produtividade.

