Gritando de dor e sem conseguir dormir, a idosa Dilma Gomes Ricaldes, de 87 anos, passou por sucessivas idas ao posto de saúde de Jaraguari, a cerca de 47 quilômetros de Campo Grande, até ter diagnosticada uma fratura no fêmur.
Após seis dias de sofrimento e tentativas da família para conseguir atendimento especializado, ela foi transferida para Costa Rica, a aproximadamente 286 quilômetros de distância, onde passou por cirurgia.
Segundo uma familiar, que preferiu não se identificar, Dilma sofreu uma queda no dia 3 de outubro. A idosa tem Alzheimer e, após a queda, foi levada pela primeira vez ao posto de saúde do município.
Na ocasião, conforme o relato, o médico afirmou que não havia sinais aparentes de fratura, como inchaço ou hematomas, e receitou medicamentos para aliviar a dor.
Como o desconforto persistiu, a família retornou à unidade no dia seguinte. Uma médica teria examinado a paciente e atribuído as queixas de dor à possibilidade de uma questão relacionada ao Alzheimer, novamente prescrevendo analgésicos e liberando a idosa para voltar para casa.
“Quando a gente ia pegar ela para dar banho, gritava de dor. Não conseguiu dormir a noite de tanta dor”, contou a familiar.
A situação também dificultava os cuidados básicos com a idosa em casa. A família disse que não tinha estrutura adequada para movimentá-la e realizar atividades como o banho diante da intensidade das dores.
Falta de raio X dificultou diagnóstico – Na sexta-feira seguinte à queda, preocupada com a piora do quadro, a familiar levou Dilma novamente ao posto de saúde e solicitou um exame de raio X na região do quadril, onde a idosa havia sofrido o impacto.
De acordo com o relato, a médica informou que o município não dispunha de serviço de raio X todos os dias. O exame dependeria da disponibilidade do profissional responsável, que poderia atender pela manhã ou à tarde, sem horário definido.
A familiar afirma que também questionou a possibilidade de encaminhamento para Campo Grande, mas recebeu a informação de que a paciente não poderia ser transferida naquele momento.
A família passou o fim de semana tentando controlar o sofrimento da idosa com os remédios prescritos. Somente em um atendimento posterior, após a realização de exames, a fratura no fêmur foi identificada, conforme o relato da filha.
“Eu falei: ‘Ela não vai estar gritando de dor à toa’. A gente pedia ajuda, porque ela estava com muita dor”, afirmou.
Com o diagnóstico da fratura, a família passou a procurar autoridades municipais e representantes políticos para conseguir uma vaga hospitalar e atendimento ortopédico.
A vaga para transferência, no entanto, só teria sido obtida depois de seis dias. O destino foi Costa Rica, município localizado a aproximadamente 286 quilômetros de Jaraguari. O trajeto de carro entre as duas cidades leva, em média, três horas e 40 minutos.
A família também questiona as condições do transporte disponibilizado para a viagem. Dilma segundo relato foi levada na ambulância acompanhada apenas pela familiar, enquanto uma técnica de enfermagem permaneceu na cabine, junto ao motorista.
A paciente não teria contado com a presença de um médico ou de um profissional de enfermagem ao seu lado durante o percurso.
A familiar também relatou a ausência de equipamentos para acompanhar os sinais vitais da idosa e de água para oferecer durante a viagem.
“Não tinha um oxímetro para ver como estavam os sinais dela. Não tinha um enfermeiro para me dar suporte lá atrás. Minha mãe tem 87 anos, corre o risco de ter uma parada no meio do caminho. Mas, graças a Deus, não teve”, relatou.
Cirurgia – Em Costa Rica, na Fundação Hospitalar de Costa Rica, Dilma passou por cirurgia no fêmur, com colocação de pinos, conforme informou a familiar. Após receber alta hospitalar, ela retornou para Jaraguari, onde permanece em casa, acamada e em recuperação.
A família agora enfrenta os cuidados necessários para a recuperação da idosa, depois de dias marcados pela dor, pela dificuldade para conseguir atendimento especializado e pelo deslocamento para uma cidade distante.
A reportagem procurou a Prefeitura de Jaraguari para questionar as condições de atendimento no posto de saúde, a disponibilidade de exames de imagem no município e os motivos pelos quais a paciente não foi transferida para uma cidade mais próxima, como Campo Grande.
Também foram solicitados esclarecimentos sobre as condições do transporte utilizado para levar a idosa até Costa Rica, incluindo a ausência de um profissional de saúde na parte traseira da ambulância, conforme o relato da família.
Até a publicação desta reportagem, a Prefeitura de Jaraguari não havia respondido aos questionamentos.

