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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Ciclo de vergonha e mentiras afasta paciente do tratamento de vício em bets

“A procura por ajuda é menor do que deveria”, afirma o psiquiatra Marcos Estevão

O tratamento para a ludopatia, vício em apostas e jogos de azar, esbarra num ciclo de vergonha e mentiras, em que impera a confiança do jogador de que vai conseguir reaver o prejuízo, enquanto se afunda em dívida e sofrimentos.

“A procura por ajuda é menor do que deveria. As pessoas têm muita vergonha por causa dos jogos on-line”, afirma o presidente do Cead/MS (Conselho Estadual de Políticas Públicas Sobre Drogas), o psiquiatra Marcos Estevão dos Santos Moura.

A exemplo da dependência de drogas, a busca pelo prazer vai levar a pessoa a jogar de forma recorrente. “Começa a ter uma negligência muito grande. No trabalho, com a família, nas tarefas do dia a dia e a mentira é muito comum. Ao lado de tudo isso, vêm as tentativas fracassadas de parar, as dívidas com empréstimos, agiotas. Às vezes, combinado ao uso de álcool e drogas. Na ilusão do controle, começa a jogar mais para recuperar o que perdeu”.

Em geral, o tratamento começa com psicoterapia. O médico reforça que os grupos de apoio são de grande valia.

Ciclo de vergonha e mentiras afasta paciente do tratamento de vício em bets
Psiquiatra Marcos Estevão destaca tentativas frustradas de parar de jogar. (. Foto: Marcos Maluf/Arquivo)

Segundo o psiquiatra Eduardo Araújo, o transtorno não é definido apenas pela quantidade de dinheiro perdida, mas o aspecto central é a perda de controle, mantendo as apostas apesar das consequências negativas.

“Outro sinal importante é começar a apostar para recuperar o dinheiro perdido, entrando no chamado ciclo de ‘correr atrás do prejuízo’. Também podem surgir mentiras para familiares, dívidas, empréstimos, comprometimento do orçamento doméstico e prejuízos nos relacionamentos, no trabalho ou nos estudos”, diz Eduardo.

O tratamento vai identificar pensamentos, gatilhos e comportamentos que mantêm o ciclo das apostas, além de desenvolver estratégias para recuperar o controle.

Medidas práticas são usadas para dificultar o acesso às apostas, como mecanismos de autoexclusão, bloqueio de aplicativos e sites e, em alguns casos, controle temporário do acesso ao dinheiro.

“Em determinados casos, medicamentos também podem ser considerados para auxiliar no controle da compulsão ou do impulso de jogar, sempre após avaliação individualizada”, afirma o médico.

A família pode ajudar reconhecendo que o transtorno do jogo é um problema de saúde mental. Na prática, dizer “é só parar” costuma ser insuficiente quando já existe perda de controle.

"É importante conversar de maneira firme, mas sem humilhação, incentivar a procura por tratamento e não facilitar a continuidade das apostas. Isso significa evitar emprestar dinheiro repetidamente para cobrir prejuízos ou pagar dívidas sem que exista um plano de tratamento, pois isso pode acabar permitindo que o ciclo continue”, destaca Eduardo".

Os familiares devem ficar atentos a sinais de depressão intensa, desesperança ou pensamentos suicidas.

Medida provisória – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou na sexta-feira (dia 25), durante a campanha em que é candidato à reeleição, um pacote de medidas que proíbe a operação de bets, como são conhecidas as plataformas de apostas de quota fixa, no Brasil.

Ciclo de vergonha e mentiras afasta paciente do tratamento de vício em bets
Celular virou cassino com jogos on-line disponíveis 24h, (. Foto: Paulo Francis)

A iniciativa prevê o bloqueio de novos depósitos nos sites e o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei que cria crimes específicos para quem explorar ou auxiliar o funcionamento de apostas ilegais.

Segundo o governo, os apostadores terão até as 23h59 do dia 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores disponíveis nas plataformas. Após esse prazo, os bancos responsáveis pelas operações financeiras das bets deverão realizar a devolução dos saldos entre os dias 9 e 14 de outubro.

Ajuda – Em Campo Grande, o grupo Jogadores Anônimos realiza encontros todas as terças e quintas-feiras, a partir das 19h, na Rua Maracaju, 249, no Centro.

Na rede municipal de saúde, a orientação é para que pessoas que percebam sinais de dependência procurem uma USF (Unidade de Saúde da Família) ou um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) para avaliação e definição do tratamento adequado.

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