"Ele pegou a arma […] e atirou na minha neta, pelas costas, sem motivo nenhum, sem nada. Ele simplesmente atirou". O desabafo é de Elizeth Fernandes Cristaldo, a "Mãe Velha", de Kamyla Scarllet Fernandes Cristaldo, morta em 2024 por Matheus Henrique de Oliveira Domingos, 24 anos. O rapaz senta no banco dos réus nesta sexta-feira (2) na 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande.
Em frente ao Fórum de Campo Grande, a avó da jovem que passou mais de 100 dias internada após ser baleada pelo namorado da amiga, por ciúmes, clamou por Justiça junto com outros familiares. Kamila tinha 28 anos quando foi atingida pelos disparos na tarde de 1º de setembro de 2024, na Rua Nhamundá, no Bairro Jardim Colúmbia.
A jovem chegou a ser socorrida e lutou pela vida durante mais de três meses na Santa Casa de Campo Grande, mas faleceu no dia 19 de dezembro de 2024. Matheus foi preso após um ano do crime, no dia 13 de outubro de 2025, no Bairro Jardim das Cerejeiras, perto da família da vítima.
A dor de quem ficou – Reunidos em protesto na manhã de hoje, a avó relatou ao Campo Grande News como foi o dia do crime. De acordo com Elizeth, Scarllet havia acabado de terminar um trabalho como freelancer e ligou para avisar que passaria na casa da amiga apenas para tomar banho antes de voltar para casa, onde o filho pequeno a aguardava.
“Ela tinha me ligado. Ela tinha ido trabalhar num evento, que ela trabalhava fazendo freelance, por causa do bebê. Eu cuidava o bebê dela pra ela trabalhar. Ela disse pra mim assim, me ligou meia hora antes do acontecido. Ela me chamava de Mãe Dida. 'Mãe Dida’, já parei de trabalhar. O meu patrão aqui, vai me pagar, e eu já vou descer pra aí', porque eu falei pra ela que o menino tava sem leite, sem fralda”, disse.
Pouco tempo depois, veio o telefonema informando sobre o atentado. “Vinte minutos após, tô com o meu celular, eu atendi. Era uma pessoa que eu não sei o nome até hoje. 'A senhora é a avó da Scarlett?' 'Sim, sim.' 'A Scarlett foi baleada. Levou seis tiros.' Moça! Falei: 'não, não, não, não'”.

Scarllet ficou 30 dias no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) e seguiu internada sob intensos cuidados de saúde. Para custear tudo e pagar uma cuidadora no hospital, Elizeth precisou fazer empréstimos bancários. “Eu fiz até empréstimo, minha querida, que recebo BPC/LOAS, tendo que cuidar do anjinho. Fiz empréstimo pra poder pagar a cuidadora, porque com a minha idade, diabética, com a criança pra me cuidar, pagar a cuidadora no hospital”, desabafou.
Hoje, com a guarda oficial do neto, que completará 4 anos neste mês, a avó materna tenta suprir a ausência da jovem em meio a severas limitações financeiras e a constante saudade do menino.
"Esses dias ele veio e falou: 'vovó, você não tem o número de telefone da minha mãe? […] Eu precisava falar com a minha mãe um pouquinho'", relembrou Elizeth. Em outro episódio marcante, ao cair uma chuva de granizo fino no dia em que a mãe completaria 29 anos, o garoto correu para contar que a mãe estava "tomando refrigerante e derramando o gelo no chão".
A mãe da vítima, Tatiane Fernandes Cristaldo, reitera que a perda de Scarllet deixou um vazio impossível de preencher. "É uma dor imensurável. Nós todos os dias esperando que ela vai entrar por aquele portão, porque ainda não conseguimos acreditar e digerir que isso aconteceu", declarou.

Tatiane destacou ainda como o neto percebe a presença da mãe nos detalhes do dia a dia: "Se ele sente o cheiro num perfume que era dela, ele fala que é da mamãe; o pijama que ele vê… Ou seja, ele não esquece. E isso nos fere ainda mais".
"Clamo por justiça" – Mãe e avó da jovem demonstraram bastante apreensão e nervosismo diante da realização do julgamento no Tribunal do Júri. Elizeth, afirmou que buscou forças na fé para ressignificar a dor e perdoar internamente para conseguir seguir em frente na criação do neto, mas clama pela condenação:
“Eu orei. E eu clamo por justiça, e eu creio que justiça será feita. Condenado. Pagar pelo que ele fez, pagar pelo que ele ceifou a vida da minha filha".
A mãe de Scarllet expressou esperança de que o encerramento do ciclo judicial traga algum alívio. "Isso não vai trazer minha filha de volta, mas pelo menos que a pessoa que nos causou essa dor… sinta um pouco de qualquer tipo de sofrimento", concluiu.

Denúncia – Matheus foi denunciado pela 21ª Promotoria de Justiça do MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul), por homicídio qualificado por motivo torpe, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio (menosprezo ou discriminação à condição de mulher), além do porte ilegal de arma de fogo.
Conforme os autos do processo, a vítima estava na residência coabitada por sua amiga, então namorada do denunciado. Segundo a acusação, o acusado praticou o crime impelido por motivo torpe, em virtude do ciúme que nutria da amizade entre as duas.
A denúncia aponta que, no momento em que Scarllet saiu do imóvel e aguardava na calçada pela chegada de um veículo de aplicativo de transporte, o réu se aproximou em uma motocicleta e efetuou disparos de arma de fogo de inopino e pelas costas, atingindo a vítima na região cervical posterior (pescoço).
Antes de falecer, ainda no hospital, Scarllet conseguiu relatar à polícia quem havia efetuado os disparos.

