A eleição de 2026 deixou a direita de Mato Grosso do Sul diante de um problema que seus adversários gostariam de ter: administrar o excesso de força. Com Eduardo Riedel reeleito, ampla maioria na Assembleia Legislativa, sete das oito cadeiras na Câmara dos Deputados e uma representação no Senado inteiramente situada nesse campo político, o desafio passa a ser transformar tamanho eleitoral em unidade duradoura.
As duas vagas de senador disputadas neste ano ficaram com Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL. Somadas à cadeira de Tereza Cristina, eleita em 2022, consolidam o predomínio conservador na bancada estadual do Senado. No centro dessa construção está Reinaldo, que chega a Brasília respaldado por votação recorde e pelo comando de um partido que elegeu nove deputados estaduais e três federais.
O resultado permite uma leitura política: Reinaldo conseguiu converter sua experiência de governo e sua capacidade de articulação em uma estrutura de poder que sobreviveu à saída do Executivo. Riedel ocupa o governo, tem legitimidade própria e responde pela administração. O ex-governador permanece como principal articulador de uma aliança que reúne partidos, prefeitos e lideranças de diferentes origens. Essa divisão de tarefas já havia sido reconhecida pelo próprio Reinaldo em entrevista ao Campo Grande News.
Até onde vai essa supremacia? A resposta depende menos da quantidade de mandatos conquistados do que da capacidade de manter interesses diferentes em torno de decisões comuns. A direita venceu com folga, mas não se transformou em um partido único. Há lideranças com bases próprias, projetos pessoais e interpretações distintas sobre quem deve comandar os próximos movimentos.
A escolha do presidente da Assembleia será um dos primeiros testes dessa convivência. A correlação de forças favorece amplamente a eleição de um nome respaldado pelo núcleo da aliança. O PL, com a maior bancada, entra na negociação com peso expressivo. Isso, porém, não torna a decisão automática: os demais aliados também levarão à mesa seus votos, suas pretensões e os compromissos que consideram ter assumido ou recebido.
A tendência, diante desse quadro, é que a disputa principal aconteça dentro da própria maioria. Reinaldo tem força para influenciar decisivamente o resultado, mas precisará exercê-la em entendimento com Riedel e com os deputados. Uma candidatura construída por acordo demonstrará capacidade de coordenação. Uma imposição que produza ressentimentos poderá revelar os primeiros limites da hegemonia.
A presidência da Assembleia interessa para além do prestígio do cargo. Quem a ocupa participa da organização da agenda legislativa e da interlocução entre os Poderes. Para a sociedade, entretanto, a dimensão da maioria traz outra preocupação: a disposição dos parlamentares de fiscalizar um governo sustentado pelo mesmo grupo. Estabilidade política pode ajudar a aprovar projetos; acomodação pode reduzir o debate e enfraquecer a cobrança.
Em Campo Grande, a equação é mais difícil. Eleger o próximo prefeito exige conquistar um eleitorado muito maior e mais diverso do que o conjunto de parlamentares que escolhe a Mesa da Assembleia. O apoio do governador, de senadores e de deputados representa uma vantagem relevante, mas não substitui a identificação do candidato com os problemas da cidade.
A aliança pode oferecer estrutura partidária, lideranças e capacidade de mobilização. O candidato terá de oferecer credibilidade para enfrentar as demandas da Capital. Atendimento de saúde, transporte, conservação das ruas e organização das contas públicas tendem a cobrar respostas concretas. A força de um palanque pode abrir portas; dificilmente sustentará sozinha uma candidatura que não convença o eleitor.
Há também uma dificuldade anterior à campanha: escolher quem receberá o apoio. Quanto mais lideranças competitivas uma aliança abriga, maior pode ser a resistência a aceitar uma candidatura única. A eleição municipal aproxima a disputa da trajetória pessoal de cada pretendente. Aliados na eleição estadual podem se tornar adversários quando a decisão envolve o comando da cidade onde construíram suas carreiras.
Esse será um desafio em todo Mato Grosso do Sul em 2028. O grupo chega ao próximo ciclo municipal em posição privilegiada, com o governo estadual renovado e forte representação parlamentar. Terá condições de atrair candidatos e ampliar alianças. Precisará, ao mesmo tempo, arbitrar disputas locais que nem sempre obedecem à lógica das direções estaduais.
Em muitos municípios, a concorrência mais intensa poderá ocorrer entre integrantes do próprio campo conservador. Onde a oposição estiver enfraquecida, a disputa pelo apoio de Reinaldo e Riedel poderá se tornar uma etapa decisiva da eleição. Mas o acordo firmado na Capital terá de encontrar aceitação entre lideranças e eleitores locais.
Seria precipitado, portanto, interpretar o resultado de outubro como fidelidade automática a um comando. Os próprios votos revelam escolhas diferentes dentro de uma mesma eleição. Levantamento mostrou que Riedel venceu com folga inclusive nos seis municípios em que Lula ficou à frente de Flávio Bolsonaro. O eleitor combinou preferências que as alianças partidárias, isoladamente, não explicam.
Para a oposição, o cenário impõe mais do que esperar pelo desgaste dos vencedores. Será necessário reconstruir presença nos municípios, formar lideranças e apresentar alternativas reconhecíveis para a vida cotidiana. Uma maioria desse tamanho dificilmente será enfrentada apenas com discursos de rejeição ao grupo dominante.
Para quem venceu, a concentração de poder aumenta a responsabilidade. Quanto maior a influência sobre o Executivo, o Legislativo e a representação em Brasília, menor o espaço para atribuir dificuldades à falta de apoio político. A força conquistada nas urnas passa a alimentar a expectativa de resultados.
A direita sul-mato-grossense tem condições de influenciar a escolha do próximo presidente da Assembleia e de chegar como favorita a muitas disputas municipais. Campo Grande também está ao alcance desse projeto, embora dependa de uma candidatura competitiva e da capacidade de preservar a aliança.
Reinaldo saiu das urnas com instrumentos para prolongar sua liderança. O próximo teste será conciliar o tamanho dessa vitória com as ambições que ela despertou. Porque uma hegemonia começa a encontrar seus limites quando os aliados deixam de discutir como vencer os adversários e passam a disputar quem ficará com a próxima vitória.

